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-Encostaram os caminhões um ao lado do outro e colocamos as redes nas quais dormimos descentemente. | -Encostaram os caminhões um ao lado do outro e colocamos as redes nas quais dormimos descentemente. | ||
-Já pela manhã o Delmar acordou, sendo o motivo o chimarrão oferecido pelo Henrique. | -Já pela manhã o Delmar acordou, sendo o motivo o chimarrão oferecido pelo Henrique.[[Arquivo:Pausa.png|miniaturadaimagem|573x573px|Simonato e Delmar na cozinha montada na beira de estrada]] | ||
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| valign="top" |Hotel e churrascaria Ipiranga | | valign="top" |Hotel e churrascaria Ipiranga | ||
Av. Min. João Alberto, nº 8 | Av. Min. João Alberto, nº 8 CEP 78300 - MT Barra do Garças | ||
[Endereço do Peron?] | |||
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==== O cotidiano ==== | |||
| valign="top" |A carne de porco com arroz era a dieta básica. A casa e alojamento eram cercadas por uma cerca de paus roliços cravados um ao lado do outro para impedir invasão dos porcos. Havia também uma cerca dessas protegendo a região frontal do secador de arroz e moega. | |||
Uma das diversões era a alimentação dos porcos. A área limpa acima do galpão de silo era onde os porcos ficavam às centenas esperando pela quirela de arroz. Alguém distante atraia a atenção dos porcos; perto do galpão outros espalhavam o arroz. Quando os porcos avistavam o espalhamento, vinham atropelando aqueles que ali estravam. Era divertido quando alguém caia e os porcos vinham por cima; coisa de guri, parecia um rodeio. | |||
Os porcos mais velhos e fortes eram chamados de Cachaços. Tinham os dentes caninos grandes e por vezes eram agressivos, era comum atacarem filhotes. Por vezes tínhamos que prender os feridos e aplicar o spray Lepecid, e era uma diversão capturá-los. | |||
O abate de porcos era frequente. Os cortes das peças eram aleatórios: dizia o Sadol “é pra nós comer” e cortava sem cuidar de articulações ou músculos. | |||
Fazíamos uma enorme pilha de palha de arroz ou milho e colocávamos a carcaça em cima antes de acender fogo. Queimava todo tipo de pelo e impurezas da pele, então como num ritual tirávamos uma lasquinha de toucinho. A carne era guardada em baldes com banha pela esposa do Sadol. [[Arquivo:Sadol e família.png|miniaturadaimagem|543x543px|Um pouco de lazer, que ninguém é de ferro...]] | |||
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==== O trabalho ==== | |||
| valign="top" |O primeiro trabalho ao chegar foi abater arvores e colher aquelas derrubadas no ano anterior para a queima e secagem do arroz. Um trabalho muito duro, feito a machado. Não eram muitas porque no ano anterior, 1981, foram cortadas em demasia. Os troncos eram recolhidos do chão para colocar na carreta a ser puxada por trator. | |||
O condutor do trator, Bastião, instruía sobre cada tipo de arvore. Numa ocasião ele derrubou uma enorme palmeira de Buriti só para servir água da seiva. Segundo ele, o Buriti não serve para queima porque sua madeira não arde.[[Arquivo:Buriti.png|miniaturadaimagem|558x558px|Delmar bebendo água de Buriti]] | |||
Certa feita pegaram em três um tronco de Sucupira, uma madeira muito dura e pesada: Simonato na ponta, Bastião no meio e Delmar atrás. Contagem até três para alçar o tronco aos ombros com muita dificuldade. De repente uma centopeia enorme sai do tronco e vai em direção ao meu rosto do Delmar, que gritou e soltou o tronco. Os dois companheiros que tiveram que suportar todo aquele peso reagiram indignados. | |||
Outro trabalho pesado era carregar cascalho com pás no reboque para melhorar os acessos à fazenda. | |||
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| valign="top" |7/Abr, | | valign="top" |7/Abr, | ||
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Trabalhamos até as 16:00hs e depois escutar o jogo Grêmio e Flamengo, decisão da copa, que ficou adiada para o domingo devido ao empate 0x0. | Trabalhamos até as 16:00hs e depois escutar o jogo Grêmio e Flamengo, decisão da copa, que ficou adiada para o domingo devido ao empate 0x0. | ||
Jantamos e depois fomos deitar. | Jantamos e depois fomos deitar.[[Arquivo:Image.png|miniaturadaimagem|742x742px|Henrique e Sebastião, trabalhador da fazenda]] | ||
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| valign="top" |Notas na margem | | valign="top" |Notas na margem | ||
| valign="top" |Alegria vem das tripas. (Zé dos Passos) | | valign="top" |Alegria vem das tripas. (Zé dos Passos) | ||
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Simonato | |||
| valign="top" |Depois da vitória do Flamengo sobre o Grêmio (1x0) na decisão do campeonato de 82, saímos da fazenda para o Paredão. | |||
Chegando lá encontramos um churrasco oferecido pelo Alfredo. Comemos, bebemos, conversamos um pouco e fomos dormir (Delmar, Bica e Heim). | |||
A viagem para a Barra foi adiada para a terça, mas à tarde, o Alfredo e a esposa resolveram ir. Saímos às 16:00hs e chegamos às 20:30hs. | |||
Encontramos o Peron, cumprimentamo-nos e fomos jantar. | |||
Após a janta fomos o hotel Rezende, alugamos quarto, tomamos banho e depois fomos dar uma volta pela cidade. Tomamos umas caipiras num bar e voltamos ao "hotel" para dormir. | |||
O pernoite no "hotel" custa Cr$ 300,00 | |||
Caipira a Cr$ 120,00 cada. | |||
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| valign="top" |27/Abr, | | valign="top" |27/Abr, | ||
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Ao meio-dia comemos pão e salame que pela fome estavam deliciosos. | Ao meio-dia comemos pão e salame que pela fome estavam deliciosos. | ||
Fomos caminhando em direção à Barra do Garças atravessando as duas pontes para comprar leite. Quando chegamos em frente da fruteira que vendia leite fresco fomos surpreendidos por uma buzinada longa do carro do Peron. Com voz autoritária disse-nos para entrar no carro. O Henrique parecia estar embriagado pois seus olhos brilhavam e sorria constantemente, mais tarde confirmaria minhas suspeitas. Entramos e após alguns minutos de voltas que o Peron tinha que dar, nos convidou para conhecer as piscinas de águas quentes | Fomos caminhando em direção à Barra do Garças atravessando as duas pontes para comprar leite. Quando chegamos em frente da fruteira que vendia leite fresco fomos surpreendidos por uma buzinada longa do carro do Peron. Com voz autoritária disse-nos para entrar no carro. O Henrique parecia estar embriagado pois seus olhos brilhavam e sorria constantemente, mais tarde confirmaria minhas suspeitas. Entramos e após alguns minutos de voltas que o Peron tinha que dar, nos convidou para conhecer as piscinas de águas quentes. [https://turismo.barradogarcas.mt.gov.br/Pontos-Turisticos/Parque-das-aguas-quentes-1 <nowiki>[Parque municipal de águas quentes de Barra do Garças]</nowiki>] | ||
Seu estado não era muito diferente do seu filho e viajávamos todos contentes. | Seu estado não era muito diferente do seu filho e viajávamos todos contentes. | ||
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É o banho mais relaxante que já tomamos. Existem duas piscinas donde a água brota do chão a uma temperatura de 37 e 42 graus aproximadamente. | É o banho mais relaxante que já tomamos. Existem duas piscinas donde a água brota do chão a uma temperatura de 37 e 42 graus aproximadamente. | ||
Estamos todos na primeira quando Bica me convida para entrar na outra. Com receio entro e o calor é mais intenso. Me disse ainda para ir do outro lado da piscina, quando faço isso isto caio em uma fossa e não faço esforço nenhum para sair dali pois é fascinante. | Estamos todos na primeira quando Bica me convida para entrar na outra. Com receio entro e o calor é mais intenso. Me disse ainda para ir do outro lado da piscina, quando faço isso isto caio em uma fossa e não faço esforço nenhum para sair dali pois é fascinante. | ||
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| valign="top" |48 dias x 500,00 = Cr$ 24.000,00 | | valign="top" |48 dias x 500,00 = Cr$ 24.000,00 | ||
Telefonema 2600, Antecipação | Telefonema 2600, Antecipação Bica 1000, Delmar 1000 | ||
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| valign="top" |28/Abr, | | valign="top" |28/Abr, | ||
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A princípio falou o mesmo que o sargento, o que foi reforçado pelo dono do bar que mora a muitos nãos lá. Mas Antônio (identif. [sic]) falou-nos que conversando com um dos chefes que havia vindo à cidade para comprar mantimentos, esse poderia interferir por nós junto ao 1º posto da Funai, e junto aos demais chefes, Aruané (que era o capitão, ou chefe geral da aldeia) e o outro chefe. | A princípio falou o mesmo que o sargento, o que foi reforçado pelo dono do bar que mora a muitos nãos lá. Mas Antônio (identif. [sic]) falou-nos que conversando com um dos chefes que havia vindo à cidade para comprar mantimentos, esse poderia interferir por nós junto ao 1º posto da Funai, e junto aos demais chefes, Aruané (que era o capitão, ou chefe geral da aldeia) e o outro chefe. | ||
Ficamos aguardando. Quando Uataú passou em frente, o dono do bar chamou-o e trouxe-o até nós. | Ficamos aguardando. Quando Uataú passou em frente, o dono do bar chamou-o e trouxe-o até nós. | ||
==== Encontro com Uataú ==== | |||
[[Arquivo:Cacique Uatau (2).png|miniaturadaimagem|706x706px|Uataú, líder Karajá]] | |||
Vem chegando o chefe: cabelos pretos e compridos até os ombros, despenteados e uma franja reta. Em cada face, bem próxima do nariz, um círculo (cerca de 1,5cm de [diâmetro]) tatuado com caco de vidro e pintado no perímetro. Rosto enrugado. Olhos pequenos, meio opacos. Boca larga e dentes perfeitos. No pescoço um colar que ele havia ganho do chefe do Xingu, feito de cordão, com casca de uma semente preta e missangas (essas industrializadas). Camisa vermelha com losângulos brancos, toda desabotoada. Barriga reta, toda enrugada. Calça vermelha, sem bainha, dobrada para cima. Pés descalços, o pé esquerdo tinha todos os dedos virados horizontalmente para fora, ferimento causado por uma arraia, o que custou dois anos até ficar bom. Falava mal o português, difícil de ser compreendido. | |||
Conversou um pouco com Antônio, o dono do bar e outros presentes, ora em português, ora em sua língua. | Conversou um pouco com Antônio, o dono do bar e outros presentes, ora em português, ora em sua língua. | ||
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O vento provocado pelo movimento dava uma sensação muito agradável. E a alegria se estampou em nossos rostos. | O vento provocado pelo movimento dava uma sensação muito agradável. E a alegria se estampou em nossos rostos. | ||
==== A Ilha ==== | |||
O barco atracou na margem oposta junto a um posto da Funai. | O barco atracou na margem oposta junto a um posto da Funai. | ||
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Vimos o hospital dos índios e seguimos. | Vimos o hospital dos índios e seguimos. | ||
==== A Aldeia ==== | |||
A ansiedade aumentava a medida que chegava mais perto da aldeia. Chegamos à primeira casa, a cozinha era separada. Ali havia um aipim muito grosso. O piloto Juracir (chamado de "cumpadre" pelos índios) ganhou alguns. | A ansiedade aumentava a medida que chegava mais perto da aldeia. Chegamos à primeira casa, a cozinha era separada. Ali havia um aipim muito grosso. O piloto Juracir (chamado de "cumpadre" pelos índios) ganhou alguns. | ||
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Quem vem nos servir a mesa é uma moça preta, a qual supomos que não deve conhecer desodorante devido ao forte e desagradável mau cheiro que sai das suas axilas e se infiltra em nossas narinas, fazendo esse órgão dos sentidos reclamar aos donos por esse tratamento desumano. | Quem vem nos servir a mesa é uma moça preta, a qual supomos que não deve conhecer desodorante devido ao forte e desagradável mau cheiro que sai das suas axilas e se infiltra em nossas narinas, fazendo esse órgão dos sentidos reclamar aos donos por esse tratamento desumano. | ||
Bem, o negócio aqui é comer, e bastante, já que estamos com muita fome e não sabemos quando será a próxima refeição decente. | Bem, o negócio aqui é comer, e bastante, já que estamos com muita fome e não sabemos quando será a próxima refeição decente.[[Arquivo:Filhote 2.png|miniaturadaimagem|476x476px|O peixe Filhote é a fase juvenil da Piraíba, um dos maiores peixes de couro do Rio Araguaia e da Bacia Amazônica. (Wikipedia)]] | ||
O peixe é um tal Filhote, muito bom. A primeira porção foi brincadeira, a segunda estava boa, a terceira demorou a chegar porque a mulher foi fritar na hora. | |||
Comemos bem a excelente comida. Pagamos (Cr$ 500 cada) e saímos. | |||
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=== O regresso === | |||
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| valign="top" |Simonato | | valign="top" |Simonato | ||
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| valign="top" |Delmar | | valign="top" |Delmar | ||
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Edição atual tal como às 20h27min de 11 de junho de 2026
Três amigos no Mato Grosso em 1982
[editar | editar código-fonte]O roteiro rodoviário
[editar | editar código-fonte]1º Na boleia de Mercedes-Benz 1113 e 2013
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| 24/fev, 4ª feira, 470 Km. | Saída de Lajeado, almoço em Aratiba/RS, parada em Concórdia/SC, pouso em Porto União, divisa entre Santa Catarina e Paraná. |
| 25/fev, 5ª feira, 500 Km. | Pouso em Jaguariaíva/PR. |
| 26/fev, 6ª feira, 280 Km. | Almoço em Ocauçu/SP, pouso em Marília/SP. |
| 27/fev, sábado, 300 Km. | Pouso em São José do Rio Preto/SP. |
| 28/fev, domingo, 320 Km. | Pouso em Itumbiara/GO. |
| 1/mar, 2ª feira, 210 Km. | Chegada a Goiânia. |
2º Aboletados nos coletivos, de Goiânia ao Paredão Grande/MT
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| 1/mar, 2ª feira, 400 Km. | Saída da rodoviária de Goiânia às 19:30h, chegada a Barra do Garças às 5:30h da manhã de 3ª feira. |
| 2/mar, 3ª feira, 200 Km. | Saída da rodoviária de Barra do Garças às 20:30h e chegada ao Paredão Grande à 1:30h da 4ª feira, dia 3 de março. |
3º Visitando a Ilha do Bananal
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| 28/abr, 5ª feira, 660 Km. | Saída da rodoviária de Barra do Garças às 5:00h e chegada a São Felix do Araguaia às 3:00h do dia seguinte. |
Notas no caderno de viagem
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O cotidiano[editar | editar código-fonte] |
A carne de porco com arroz era a dieta básica. A casa e alojamento eram cercadas por uma cerca de paus roliços cravados um ao lado do outro para impedir invasão dos porcos. Havia também uma cerca dessas protegendo a região frontal do secador de arroz e moega.
Uma das diversões era a alimentação dos porcos. A área limpa acima do galpão de silo era onde os porcos ficavam às centenas esperando pela quirela de arroz. Alguém distante atraia a atenção dos porcos; perto do galpão outros espalhavam o arroz. Quando os porcos avistavam o espalhamento, vinham atropelando aqueles que ali estravam. Era divertido quando alguém caia e os porcos vinham por cima; coisa de guri, parecia um rodeio. Os porcos mais velhos e fortes eram chamados de Cachaços. Tinham os dentes caninos grandes e por vezes eram agressivos, era comum atacarem filhotes. Por vezes tínhamos que prender os feridos e aplicar o spray Lepecid, e era uma diversão capturá-los. O abate de porcos era frequente. Os cortes das peças eram aleatórios: dizia o Sadol “é pra nós comer” e cortava sem cuidar de articulações ou músculos. Fazíamos uma enorme pilha de palha de arroz ou milho e colocávamos a carcaça em cima antes de acender fogo. Queimava todo tipo de pelo e impurezas da pele, então como num ritual tirávamos uma lasquinha de toucinho. A carne era guardada em baldes com banha pela esposa do Sadol.![]() |
O trabalho[editar | editar código-fonte] |
O primeiro trabalho ao chegar foi abater arvores e colher aquelas derrubadas no ano anterior para a queima e secagem do arroz. Um trabalho muito duro, feito a machado. Não eram muitas porque no ano anterior, 1981, foram cortadas em demasia. Os troncos eram recolhidos do chão para colocar na carreta a ser puxada por trator.
O condutor do trator, Bastião, instruía sobre cada tipo de arvore. Numa ocasião ele derrubou uma enorme palmeira de Buriti só para servir água da seiva. Segundo ele, o Buriti não serve para queima porque sua madeira não arde.
Outro trabalho pesado era carregar cascalho com pás no reboque para melhorar os acessos à fazenda. |
| 7/Abr,
Simonato |
O trabalho fatigante que nos acompanha é recompensado pela notícia que a partir de amanhã teremos folga pelo fato de não haver mais arroz para secar. |
| 8/Abr,
Simonato |
Quinta feira santa.
Inesperadamente chegou mais uma carga de arroz para secar. Trabalhamos toda manhã para aprontar o arroz. Feito isso começamos (Bica e Delmar) a programar nosso descanso. |
| Delmar | Tínhamos em mente ir passar nosso feriado no ZEZE-40 mas isso se tornou inviável devido a distância. A tarde já não tínhamos mais o que fazer. Decidimos então arrumar um garrafão vazio para ir buscar canha junto com Bastião e os Saqueiros[?] no Rubens, um gerente de fazenda que possuía bastante cachaça. Sadol não contrariou, até nos levou de trator perto do lugar.
Continuamos o caminho a pé e chegamos no tal lugar, uma cabana que parecia abandonada com uma égua amarrada num poste, esperamos alguns momentos quando Bastião falou: - Lá vem eles. Eram duas pessoas de estatura baixa, com caniços nas mãos de cuecas apenas. Nos cumprimentaram apertando a mão de cada um dos componentes do grupo. Nos convidaram para entrar e sentar. Nos foi servida a bendita cachaça que pelo gosto não parecia ser boa, mas que pela ansiedade tomamos com tamanha vontade que nada reparamos. Ao fim de meia hora, já quase embriagados e com o garrafão cheio partimos rumo ao Paredão em meio riachos e mato a 3 km dali. Fomos cantando e sorrindo entre a mata. A lua cheia proporcionava-nos uma boa caminhada na estradinha pouco usada. De longe já avistávamos as luzes do vilarejo. |
| Simonato | Fomos diretamente ao bar do Vilson, tomamos algumas cervejas, e, como não estavam servido refeições, fomos jantar no Gonzaga. Tomamos mais cervejas (nós e o Bastião) acompanhados pela Ivone e o Alfredo, que foram embora antes de nós. Saímos da sala de jantar e fomos tomar mais cerveja no balcão. Quase arrumamos uma briga com um cara dali que pegou nosso cigarro e devolveu após muita reclamação. (Na noite seguinte este cara irá falar com o Delmar e reclamar de sua má sorte com a colheita e chorar).
Para acabar com o incidente compramos carne e farinha de mandioca e fomos à casa do Bastião para dormir. Tomamos mais um pouco de cachaça e logo eu (Bica) peguei no sono, enquanto o Bastião e o Delmar comeram farofa com a cachaça. |
| 9/Abr,
Simonato |
Sexta feira santa.
Acordamos pela manhã com um pouco de dor de cabeça, de ressaca. Pretendíamos voltar a fazenda com o Alfredo, que mora ao lado do Bastião, convidou-nos para ir visitar a fazenda de um tal "Meno". Aceitamos e fomos. Foi uma viagem de 90 km de buracos e baques, mas foi recompensada pelo almoço com peixes. Esta fazenda é a mais bem estruturada da região. O secador é abastecido por uma usina construída num córrego existente ali. A energia é fornecida a toda a fazenda, o secador tem comando eletrônico, 5 silos armazenam temporariamente o arroz. Este fazendeiro é o que mais tem "conforto". Possui uma horta, coisa que quase nenhum tem. Até ar-condicionado tem na casa. Tem também rádio amador. Possui o que existe de melhor de maquinário. Visitamos outras fazendas depois dessa e voltamos muito cansados. |
| 10/Abr,
Simonato |
Passamos o dia aqui no Paredão pois a noite aqui teve um churrasco.
A carne foi preparada por mim e o Delmar, em condições indignas para um gaúcho, mas ficou razoável. Todos comidos e bebidos, resolveram fazer um bailezinho no "Chapéu de Palha". Rolou mais cerveja e um pouco de dança. Terminada essa, sentamos ao lado de uma colhedeira [sic] na rua, acompanhados pelo Gordo para conversar, mas dormimos logo. |
| Notas na margem | Delmar fica brabo com o fogo que não acende direito, ainda mais com a vontade de cagar. Foi ao mato e para se limpar usou o que tinha, o pano de prato. |
| 11/Abr,
Simonato |
Hoje é Páscoa, ninguém fala nisso e passa despercebido.
Voltamos à fazenda de manhã e à tarde trabalhamos, secagem de arroz. |
| 14/Abr,
Delmar |
A noite foi chuvosa, nada de anormal, apenas um sono tranquilo até nosso chefe nos acordar às nove horas para dar comida aos porcos, arroz e quirela com casca.
Feito isto tínhamos que ajudar os saqueiros Zé dos Passos, Zé Guedes e Bastião a ensacarem o arroz. Perto do meio-dia Bica recebeu a incumbência de arrumar lenha para o fogão. O dia amanheceu e ainda continuava chovendo. Todos estávamos parados, sem serviço algum quando Zé dos Passos disse que tinha trazido uma garrafa de conhaque e um violão. Conquistamos sua vontade e assim podemos assistir umas modas de viola sertaneja debaixo da oficina de chão batido. Mostrou-se um exímio cantador, com dedilhados próprios e cantigas dos mais variados estilos, mas na maioria sertanejos. Bica gritou da casa dizendo que a comida estava pronta. A atenção foi dada após termos tocado e cantado a última marca. A garrafa estava vazia e decidimos finalmente almoçar. |
| Notas na margem | Jogo decisivo do Grêmio. |
| 21/Abr,
Simonato |
Feriado em todo Brasil, menos aqui.
Trabalhamos até as 16:00hs e depois escutar o jogo Grêmio e Flamengo, decisão da copa, que ficou adiada para o domingo devido ao empate 0x0. Jantamos e depois fomos deitar.![]()
|
| Notas na margem | Alegria vem das tripas. (Zé dos Passos) |
| 25/Abr,
Simonato |
Depois da vitória do Flamengo sobre o Grêmio (1x0) na decisão do campeonato de 82, saímos da fazenda para o Paredão.
Chegando lá encontramos um churrasco oferecido pelo Alfredo. Comemos, bebemos, conversamos um pouco e fomos dormir (Delmar, Bica e Heim). A viagem para a Barra foi adiada para a terça, mas à tarde, o Alfredo e a esposa resolveram ir. Saímos às 16:00hs e chegamos às 20:30hs. Encontramos o Peron, cumprimentamo-nos e fomos jantar. Após a janta fomos o hotel Rezende, alugamos quarto, tomamos banho e depois fomos dar uma volta pela cidade. Tomamos umas caipiras num bar e voltamos ao "hotel" para dormir. O pernoite no "hotel" custa Cr$ 300,00 Caipira a Cr$ 120,00 cada. |
| 27/Abr,
Delmar |
A noite foi tranquila escrevendo cartas. Acordamos às 9:00 horas aproximadamente. Sabia que tínhamos que fazer várias coisas neste dia. A primeira foi cortar o cabelo. Depois disto fomos procurar o velho Alfredo em um hotel a parte, pois tinha pela manhã que trocar uns cheques e entregar metade do nosso dinheiro.
Ao meio-dia comemos pão e salame que pela fome estavam deliciosos. Fomos caminhando em direção à Barra do Garças atravessando as duas pontes para comprar leite. Quando chegamos em frente da fruteira que vendia leite fresco fomos surpreendidos por uma buzinada longa do carro do Peron. Com voz autoritária disse-nos para entrar no carro. O Henrique parecia estar embriagado pois seus olhos brilhavam e sorria constantemente, mais tarde confirmaria minhas suspeitas. Entramos e após alguns minutos de voltas que o Peron tinha que dar, nos convidou para conhecer as piscinas de águas quentes. [Parque municipal de águas quentes de Barra do Garças] Seu estado não era muito diferente do seu filho e viajávamos todos contentes. Chegamos ao local e fomos beber umas cervejas na mesa de um bar. Tudo isto financiado pelo Peron. Henrique sumiu por entre as árvores pois já conhecia o local e as suas alegrias proporcionadas. Continuamos sentados e bebendo cerveja e conversando sobre nossa vida no Mato Grosso e constantemente o Peron me pergunta o que achei do lugar. Sempre que isto acontece procuro dizer-lhe que foi bom, mas no fundo não penso assim. Bica também some e conversamos falando honestamente um para o outro das razões de Henrique estar ali. Chegamos até travar uma pequena discussão sobre sua culpa ou não na história. Resolvemos depois da derradeira, que por sinal eu financio, ir ao local onde Bica e Henrique supostamente estão. Descemos alguns metros entre as árvores e avistamos ainda de longe os dois tomando banho. Avanço apressadamente a frente para fazer o mesmo. Tiro a roupa, fico só de cuca e entro na água. É o banho mais relaxante que já tomamos. Existem duas piscinas donde a água brota do chão a uma temperatura de 37 e 42 graus aproximadamente. Estamos todos na primeira quando Bica me convida para entrar na outra. Com receio entro e o calor é mais intenso. Me disse ainda para ir do outro lado da piscina, quando faço isso isto caio em uma fossa e não faço esforço nenhum para sair dali pois é fascinante. A água que sai do chão faz com que a areia esfregue sobre o corpo dando uma sensação incrível. Quanto mais mexo as pernas mais agradável é o sentimento. A água está na altura do peito, a areia até os joelhos. Sinto a sensação de estar em uma areia movediça pois quanto mais faço força para sair procurando um apoio para os pés, mais afundo. Descubro como, fazendo movimentos de braço como que nadando, sair do buraco. Logo volto, pois, vejo que não há perigo. Saímos dali para a Barra pois já estava escurecendo. Tudo continua alegre. O Peron parou em bar da cidade para beber. Bebemos mais umas 3 cervejas acompanhadas de salgadinho (Figueiredo). Decide logo depois de sair dali telefonar, ou melhor fazer seu filho telefonar para ver como é que andariam as coisas no sul. Fica nervoso, se nota perfeitamente quando fala com Dona Teresa. Bica não aguentou teve que telefonar para casa também. Como não poderia deixar de ser, também ficou nervoso ao falar com sua garota. Saímos dali e fomos tomar mais uns goles no bar de uns alemães. Estávamos todos conversando quando subitamente Peron se levanta dizendo que vai procurar o velho Alfredo para arranjar algum dinheiro e ir com o Henrique para o sul. Saímos do bar e buscamos todas nossas bagagens no hotel Rezende. Surpreende-se Bica perguntando ao Peron se é só aquilo que leva, pois sabemos que no Sul faz muito frio. Estamos num barzinho na rodoviária tomando algumas. Peron e Henrique partem às nove horas, são oito da noite. Como tudo transcorreu rápido durante a tarde, Bica e eu damos as correspondências para o Henrique levar. Nosso ônibus sais às cinco da manhã, o deles sai agora. Despedimo-nos sem muito calor. Estamos ainda no bar quando parte o ônibus. Como o ambiente da rodoviária não é muito bom, decidimos que Bica dormiria duas horas e meia, depois eu, restando assim uma hora para que ficamos os dois juntos acordados. São onze horas quando Bica começa a dormir sentado no chão com o cobertor por cima e como travesseiro nossa mochila. Eu enquanto isso vigio constantemente até chegar [a minha hora]. |
| Notas na margem | 48 dias x 500,00 = Cr$ 24.000,00
Telefonema 2600, Antecipação Bica 1000, Delmar 1000 |
| 28/Abr,
Delmar |
Acordo e ficamos acordados conforme o combinado. Compramos uma garrafa de canha das mais boca braba que tem no boteco. Isto nos serviria muito na viagem cansativa de 24 horas até São Félix [do Araguaia].
Chegando o ônibus colocamos as mochilas no porta-malas fora do carro, levo um cobertor enrolado na garrafa de trago para que ninguém perceba. Bica leva o livro Papillon que estou acabando de ler e que ele já leu. É uma balbúrdia dentro do ônibus pois os números dos assentos estão mal marcados pelo vendedor de passagens. Tenho certeza que as nossas são 17 e 18. Vou observando os números e encontro para meu espanto as poltronas ocupadas por dois índios. Olho para o Bica e digo: -E agora? Ele me responde dizendo para ver os números das passagens deles. Não há quase luz dentro do ônibus mas mesmo assim consigo enxergar os números 11 e 12. Tento lhes dizer que ali não é seus lugares, impossível de ser compreendido dessa maneira faço gestos com as mãos. Sou felizmente compreendido. Os dois saem e sentamos Bica na janela dá risadas da cortina que está em tiras. Observo que a troca de lugares não aconteceu só conosco pois todos estão perdidos, pedindo uma atitude do motorista. Enfim, apesar de tudo o ônibus partiu. Nós em nossos devidos lugares, os outros não sei, mas felizmente partimos. A estrada é muito ruim, o ônibus chacoalha o tempo todo e anda com considerada vagareza, calculo uns 40 km/h em certos trechos. Almoçamos em Água Boa, uma currutela [sic] muito pouco povoada. Comemos o mais barato (sortido) pois devemos sempre economizar. Continuamos a viagem. Na maioria do tempo lemos quando não estamos dormindo. A vegetação, a uma determinada etapa, começa a mudar. A mata torna-se mais alte e mais espessa e isto conforta nossos olhos pois é muito bonito. De repente uma freada brusca, levantamos de nossos bancos para ver o que acontece. É uma capivara que cruzava a estrada. Seu tamanho não é muito grande, mas já demonstra um ambiente nativo. Existem várias paradas durante o percurso, dentre elas duas para as refeições almoço e janta. Numa destas paradas, em um bar ou restaurante que tive que comprar um pacote de bolachas para nossa refeição da noite. Foi quando um dos índios, o mais velho perguntou quanto custou. Tentei mostrar-lhe falando 120 cruzeiros, mas só consegui meu intento depois de retirar 120 cruzeiros do bolso e colocado junto do pacote de bolachas. É impressionante a frieza destes índios pois jamais demonstram em suas faces alegria ou tristeza ou qualquer sentimento. |
| 29/Abr,
Delmar |
Hoje 29 de abril, 3 horas da manhã chegamos em São Félix, o ônibus para em uma garagem. É o fim da linha. Nota-se que um gerador é ligado e as luzes se acendem na garagem. Não temos onde ficar por isso sentamos em uma área pequena de um bar próximo do local e esperamos amanhecer.
Bica permanece o tempo todo acordado, o mesmo não acontece comigo que estendido no chão e com o cobertor por cima, durmo algumas horas. O dia está amanhecendo quando somos surpreendidos pelas portas do bar que se abrem e uma senhora nos diz bom dia. Respondemos o mesmo e sobre uma mesa debaixo da área ela coloca vários alimentos dos quais nos servimos de café e bolo de queijo. Conversamos algum tempo sobre a cidade, o dia amanhece, pegamos nossos pertences e partimos em direção ao rio Araguaia. A uma distância de aproximadamente 50m da margem avistamos um barco adventista que estava saindo. Mais tarde saberíamos que poderia ser o nosso transporte pelo Araguaia em direção norte. |
| Simonato | Chegamos na margem do rio e acompanhamos com o olhar o barco, até este sumir de vista; era um bonito barco.
Estamos sujos e cansados, mas ao observarmos o rio e a ilha tivemos uma grande alegria. A dimensão e a beleza eram excepcionais. Margeando o rio no sentido da corrente, fomos até onde havia dois pescadores. Durante este percurso ouvíamos um barulho estranho vindo da ilha que fica a 1050m desta margem. Delmar supôs que fosse um motor. Eu pensei num animal, parecido com rugido de onça, mas como era tão intenso, seria ilógica esta ideia, por isso não revelei minha opinião para não ser gozado. Perguntamos aos pescadores, ficamos sabendo que tratava-se de bugios. Esse rugido continuou por toda tarde, às vezes diminuindo, mas voltando a se tornar esganiçado. Soubemos, também através dos pescadores, que ali não haveria problema em tomar banho. Fui comprar um sabonete, papel higiênico e pasta dental. Enfim entramos na água. Temperatura agradável, correnteza forte e a 2m da margem já era muito fundo. Isso eu percebi quando avancei água adentro, sentindo o problema tratei de voltar, batendo com o joelho no barranco íngreme que se formava, e sofrendo um pequeno ferimento. Tivemos grande prazer ao defecarmos na água. Fizemos tanto esforço para chegar até ali, e poder cagar no rio era uma satisfação vinda da alegria. Apenas ficamos um pouco apreensivos quando os restos de Delmar encalharam no casco da canoa dum pescador que se preparava para sair. Mas este saiu sem se dar conta e pudemos respirar mais folgados. Delmar comentou que o esforço maior se dá na saída do primeiro cagalhão, quando tem-se que vencer a pressão da água, o resto vem no vácuo. Quando tomei a posição de cócoras para cagar, vi que ele tinha razão. Agora estamos limpos por fora e por dentro. |
| Delmar | Pensando melhor este dejeto fará a viagem que gostaríamos de fazer São Félix - Belém. Bom, chega de monumentais [sic].
Bica me falou que encontrou um certo ar de amizade do dono do armazém em que comprou o sabonete. Sugeriu que deixássemos nossas bagagens no local para procurarmos um tal de Miguel o qual Zé Guedes nos indicou para procurar caso necessário. Aconteceu como o previsto; chegando no escritório nos apresentamos a um rapaz empregado do Sr. Miguel que nos forneceu algumas informações sobre a possibilidade de visitarmos a ilha. Saímos dali quase como chegamos pois as informações não eram concretas. Retornamos a margem do Araguaia já meio desolados pelo pessimismo. |
| Simonato | Não desistimos. Fomos falar com os pilotos das voadeiras que fazem o transporte até a ilha. Estes informaram que seria possível, porém não esclareceram bem como deveríamos agir. Por fim um sugeriu que esperássemos um dos chefes (Uataú) que chegaria logo.
Enquanto esperávamos chegou por ali um sargento da FAB que ia para a ilha. Achamos que seria a pessoa mais indicada para nos ajudar. Interpelado, ele negou categoricamente qualquer chance de ir à aldeia sem uma permissão por escrito de uma divisão da FAB, da Funai e mais a tomada de vacinas a fim de proteger a população, segundo ele. Com essa má vontade e arrogância apresentadas pelo sargento, ficamos desolados mas ainda não vencidos. Com essa de agora e mais a impossibilidade de ir a Belém de barco, baixou o astral. Resolvemos ir até um bar "palafita" e lá tomamos um samba. Pegamos o mapa para observar a estrada que nos levou até ali. Esta não constava. Delmar foi pedir informações a uma garota do bar. Nesse meio tempo entrou um homem com muita gravidade no semblante. Tomou o mapa e começos a dar explicações sobre toda a região. Era um grande conhecedor do lugar. Percebendo isso, começamos a interpelá-lo sobre alguma maneira de ir à aldeia, depois de pagar-lhe um trago. A princípio falou o mesmo que o sargento, o que foi reforçado pelo dono do bar que mora a muitos nãos lá. Mas Antônio (identif. [sic]) falou-nos que conversando com um dos chefes que havia vindo à cidade para comprar mantimentos, esse poderia interferir por nós junto ao 1º posto da Funai, e junto aos demais chefes, Aruané (que era o capitão, ou chefe geral da aldeia) e o outro chefe. Ficamos aguardando. Quando Uataú passou em frente, o dono do bar chamou-o e trouxe-o até nós. Encontro com Uataú[editar | editar código-fonte]
Vem chegando o chefe: cabelos pretos e compridos até os ombros, despenteados e uma franja reta. Em cada face, bem próxima do nariz, um círculo (cerca de 1,5cm de [diâmetro]) tatuado com caco de vidro e pintado no perímetro. Rosto enrugado. Olhos pequenos, meio opacos. Boca larga e dentes perfeitos. No pescoço um colar que ele havia ganho do chefe do Xingu, feito de cordão, com casca de uma semente preta e missangas (essas industrializadas). Camisa vermelha com losângulos brancos, toda desabotoada. Barriga reta, toda enrugada. Calça vermelha, sem bainha, dobrada para cima. Pés descalços, o pé esquerdo tinha todos os dedos virados horizontalmente para fora, ferimento causado por uma arraia, o que custou dois anos até ficar bom. Falava mal o português, difícil de ser compreendido. Conversou um pouco com Antônio, o dono do bar e outros presentes, ora em português, ora em sua língua. Após o Antônio dirigiu-o a nós. -Chefe, apresentar dois amigos bons, que vir do rio Grande do Sul. -Rio Grande! Terra do Presidente Vargas. Falou e apertou nossas mãos. Antônio explicou a ele que queríamos ir conhecer a aldeia, sem máquina fotográfica ou filmadora, o que era proibido. Ele concordou e ficou ali conversando. Pagamos um guaraná em lata, pedido dele. Algum tempo depois foi buscar mantimentos e voltaria ali para irmos. Delmar saiu com ele para ir ver os nossos bagulhos e pegar mais dinheiro. Eu fiquei ali. Chegou um senhor e começou a discutir com o Antônio sobre a localização de um rio, vendo que não concordavam mostrei-lhes o mapa e a questão foi resolvida. Com isso continuei conversando com ele, quando chega o Delmar e junta-se a nós. Este senhor era tenente coronel reformado. Tinha algum tipo de negócio aqui, em Rondônia e Amazonas. Conversamos sobre esses lugares e outros que ele conhecia, sobre o conflito nas Malvinas e outros, por muito tempo, até a volta do chefe. O chefe estava todo o tempo acompanhado de um jovem índio da tribo do Xingu. Caminhamos os quatro até as voadeiras onde o chefe chamou o piloto Juracir, antigo amigo. explicamos ao piloto nossa intenção e partimos. O rio fazia algumas ondas e a frente do barco batia com certa força quando descia das ondas. O jovem índio fazia algumas caretas pois com a batida doía-lhe a bunda e ele era o que estava na proa. O rio aqui media [aproximadamente] 1000m. O piloto cruzou o rio em diagonal com relativa velocidade demonstrando capacidade no seu trabalho. O rio tinha margens bonitas. Águas limpas. O vento provocado pelo movimento dava uma sensação muito agradável. E a alegria se estampou em nossos rostos. A Ilha[editar | editar código-fonte]O barco atracou na margem oposta junto a um posto da Funai. Guiados pelo chefe, fomos até o responsável pelo posto que devia dar sua permissão. Foi negativo, expondo os mesmos argumentos que o sargento da FAB. O chefe interveio em nosso favor. O responsável voltou atrás dizendo que devíamos falar com o capitão e o Eraldo, mas que mesmo assim não seria possível, desencorajou ao máximo. Agora tínhamos que conversar com os outros dois, Eraldo e o capitão. Voltamos ao barco e seguimos em frente. Passamos em frente a um hotel bonito, o JK, mas que estava fechado, é uma pena. Foi construída na época do Juscelino e em sua homenagem. Muitos turistas americanos passaram por ali. Continuamos "voando" pela mesma margem do rio apreciando as belezas da margem e a água. Avistei algumas crianças índias brincando. Havia uma corda amarrada à uma árvore do barranco, as crianças se balançavam nela e caiam na água, sempre gritando. Nesse ponto o barco diminuiu a velocidade e atracou ao lado da criançada. Desembarcamos, o chefe levou os mantimentos a uma casa próxima, separada da aldeia. Em seguida nos dirigimos ao posto da Funai que fica junto da aldeia para falar com Eraldo. O chefe nos apresentou, explicou nossa intensão, não tínhamos máquina fotográfica oi filmadora. Ele concordou plenamente sem impor qualquer restrição, agora estava tudo acertado e finalmente vamos ver essa almejada aldeia. Na saída encontramos o filho do chefe que nos acompanhou, falava bem português. Mostraram, de longe, o destacamento da FAB e a pista de aterrissagem, obras do período JK. Passamos em frente à antiga pista construída pelo Presidente Vargas. O chefe contou orgulhoso que certa vez o Vargas esteve ali e conversou com ele. Seu filho era afilhado do Vargas. Vimos o hospital dos índios e seguimos. A Aldeia[editar | editar código-fonte]A ansiedade aumentava a medida que chegava mais perto da aldeia. Chegamos à primeira casa, a cozinha era separada. Ali havia um aipim muito grosso. O piloto Juracir (chamado de "cumpadre" pelos índios) ganhou alguns. Queríamos comprar artesanato, mas não foi preciso comunicar aos índios. Assim que chegamos a índia que morava na casa ofereceu pulseiras e colares. Compramos alguns. Mostrou também uma rede toda feita de fibra de buriti, muito linda, mas como o preço era 6.000,00, barato por sinal, foi impossível comprar. Pagamos e seguimos. Quando chegávamos à segunda casa, Uataú gritou alguma coisa em sua linguagem e logo apareceu uma índia com artesanato na mão. Compramos duas cabaças Cr$ 200,00 cada. Ali pudemos olhar o interior da casa, onde tinha esteiras no chão onde algumas crianças estavam deitadas, o fogão era algumas pedras encostadas, restos de comida pelo chão, louça suja, algumas redes penduradas e uma série de outros trastes pelo chão, inclusive adornos de festas e arcos e flechas. Todas as choupanas da aldeia eram neste estilo, desorganizadas e com mau cheiro. Continuamos, um índio jovem estava sentado debaixo de uma árvore fazendo uma boneca de madeira, mais adiante e próximo ao rio um índio limpava um pirarucu de +- 20 kg, usando um machado para tirar as escamas, pegamos algumas. Em vários lugares havia fibra de buriti espalhada no chão pera secar. Sempre que passávamos em frente a uma casa, uma índia vinha oferecer artesanato, compramos pouco (dois mil). Numa casa um índio mostrou alguns adornos, pulseiras de dias festivos. Chegamos ao final da aldeia, um jovem índio estava cobrindo uma choupana com folhas, desceu a escada e veio falar conosco, insistiu em mostrar um cachimbo feito por ele, encheu o saco até, e trouxe o dito, demos uma olhada e elogiamos. Agora voltamos, o pirarucu já está limpo e dois pedaços grandes de filé estão pendurados numa árvore para secar, espécie de bacalhau. Passa uma índia nova i linda ao meu lado, indo para o rio, querendo olhar de novo vou atrás, mas sou chamado pelo Uataú, que nos diz que o barco está mais acima, putzgril. Saímos do centro da aldeia e vamos a um barracão onde estão os adornos maiores das festas, o chefe explica como são usados, são muito bonitos, em frente existe um "pau de sebo", para nós, onde são feitas competições. Terminamos a visita, vamos ao barco. Antes de entrar o chefe chega perto de mim, e fazendo expressão humilde me pede algum dinheiro para comprar mantimentos, estou com pouco dinheiro, puxo a carteira e dou Cr$ 50,00, ele diz que é pouco, dou mais Cr$ 100,00, ele diz que não dá para comprar nada, e pede Cr$ 450, não sei porque esta quantia, não tenho, digo isso a ele e me apresso em direção ao barco. Achei lamentável essa atitude do chefe dos Carajás, os índios dali não tem mais o seu orgulho e altivez, pegara os maus hábitos do homem branco, devido à integração. Deu-me a impressão, não sei se correta, de que havia concordado em nos trazer até ali com o objetivo de vender artesanatos e ganhar dinheiro conosco, e não simplesmente para mostrar a aldeia. O piloto liga a "voadeira" e seguimos, junto vai o filho do Uataú, quer uma carona até a cidade. O rio é enorme, as margens cheias de mato, uma paisagem linda. Atracamos o barco, pagamos o piloto (Cr$ 2.000 ao invés dos costumeiros Cr$ 1.000). Quando descemos, o índio pede dinheiro, o Delmar deu umas cinco ou seis notas de Cr$ 10,00, o índio fica reclamando e nós nos viramos e vamos embora. É meio-dia, vamos até o armazém ver as bagagens e guardamos o artesanato. O dono do armazém nos indica um restaurante onde poderemos comer peixe, já que estamos a fim. Sentamos no restaurante e uma mulher vem nos atender, fazemos o pedido. Quem vem nos servir a mesa é uma moça preta, a qual supomos que não deve conhecer desodorante devido ao forte e desagradável mau cheiro que sai das suas axilas e se infiltra em nossas narinas, fazendo esse órgão dos sentidos reclamar aos donos por esse tratamento desumano. Bem, o negócio aqui é comer, e bastante, já que estamos com muita fome e não sabemos quando será a próxima refeição decente.![]()
Comemos bem a excelente comida. Pagamos (Cr$ 500 cada) e saímos. |
O regresso
[editar | editar código-fonte]| Simonato | De São Félix viajamos para Cuiabá. Fomos visitar os irmãos do Valmir, amigo de Esteio. Ficamos uma semana, dali fomos visitar outro irmão que morava na Várzea Grande e tinha um canil. Atravessamos a ponte sobre o rio Cuiabá, chamou atenção a quantidade e tamanho dos peixes à venda. Como o dinheiro estava escasso novamente, vendemos a barraca que o Henrique tinha emprestado.
Terminado este período começamos a volta para o sul. Indicados por alguém fomos até o posto da PRF na rodovia, onde com a ajuda de agentes conseguimos carona com ônibus da Eucatur que voltava vazio para o Paraná. Acho que demos um canivete para o motorista. Na rodoviária de Cascavel dividimos um “X” salada e embarcamos, na manhã seguinte descemos em Canoas, próximo ao avião. O último dinheiro foi suficiente apenas pra pagar a passagem da Real Rodovias e finalmente chegar em Sapucaia do Sul. |
| Delmar |





